quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Crônicas da Vida - Curto e Grosso: João e Maria


João e Maria são namoradinhos novos. É evidente pelo modo como os dois são vistos sentados num barzinho. Lado a lado; João faz carinho na mão de Maria; rolam uns beijinhos carinhosos durante a conversa; Maria faz carinho na perna de João.

João e Maria já namoram há alguns anos e estão prestes a noivar. É evidente pelo modo como os dois são vistos sentados num barzinho. Frente a frente. João ainda faz carinho na mão de Maria; rolam uns beijinhos carinhosos durante a conversa; Maria provoca, acariciando com o pé a perna de João.

João e Maria são casados. É evidente pelo modo como os dois são vistos sentados num barzinho. Ainda frente a frente. João faz pouco carinho na mão de Maria (está preocupado com as finanças e olhando constantemente o celular); quase não rolam beijinhos carinhosos durante a “quase” conversa; Maria não faz provocações por baixo da mesa a João.

João e Maria são casados faz tempo. É evidente pelo modo como os dois são vistos sentados num barzinho. Frente a frente, mas com as crianças do lado. Ou nem sempre sentados frente a frente, visto que hora é João quem corre atrás de Pedrinho, hora é Maria. Manuela ainda é nenê e fica a maior parte do tempo dormindo no carrinho.

João e Maria são casados há muitos e muitos anos e estão prestes a se divorciar. É evidente pelo modo como os dois são vistos sentados num barzinho. Um de cada lado! Ele na zona leste da cidade, rodeado de amigos após uma partida de futebol; ela em um bar com as amigas na zona sul.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Darksiders


John recobrou os sentidos, mas ainda estava bastante atordoado. Estava caído em um beco escuro, sobre uma poça de água suja e fétida. Não tinha lembranças de como havia chegado até ali. Ou do que havia acontecido. Foi então que viu algo que o atordoou ainda mais.

Em outra poça, logo a sua frente, John viu ele mesmo, caído e com um pedaço de ferro enfiado na cabeça. Havia muito sangue no chão.

Esfregou os olhos freneticamente, esperando que ao terminar o gesto o corpo não estivesse lá. Seria apenas imaginação? Mas ao abrir os olhos novamente, lá estava ele mesmo caído e aparentemente morto. As roupas eram idênticas às que John estava usando. Jeans surrados e rasgados, camiseta branca e uma jaqueta de couro marrom bastante desgastada e velha.  

John se estapeou diversas vezes no rosto. Com força. Mas o corpo continuava lá. Não parecia imaginação. Ele então virou o homem com seu próprio rosto e checou a pulsação. Nenhum batimento. E o corpo estava frio e rígido, provavelmente morto já há algum tempo.

Antes de retirar a mão do cadáver, John sentiu uma espécie de choque percorrer todo seu braço e uma onda de lembranças atingiu sua mente.

Um bar de strip-tease. Uma, duas, muitas doses de whisky barato. Algumas cervejas quentes. Muitos dólares colocados na calcinha da loira com peitos dignos de estrelas de filmes pornôs. Ela havia sentado em seu colo e esfregado os mamilos em sua cara. O perfume era doce, mas muito diferente do perfume de Lydia! Naquela manhã, a namorada de idas e vindas desde os tempos de colégio havia deixado John: ou você deixa essa vida de crimes, ou eu deixo você! Esse ultimato fora há um mês, mas ele não acreditou.

Saiu do bar sozinho; cambaleando. Subiu na Harley Daividson e deu partida. A chuva batendo em seu rosto ajudou um pouco. Após alguns quilômetros, as doses de whisky barato e as cervejas cobraram seu preço: sentiu vontade de mijar e estava bastante enjoado. Parou a moto e saltou próximo a um beco escuro e isolado em uma área aparentemente industrial. Enquanto mijava na chuva, ficou enjoado e vomitou repentinamente. Caiu de joelhos e outro jato de bebida subiu de seu estomago queimando a garganta enquanto abria seu caminho para o mundo. Foi então que ouviu as risadas!

- Hihihihi! Hahahaha! Que cena patética! Eu nunca perderia a compostura por casa de uma puta como a Lydia!

John olhou assustado para o local de onde veio a voz. Parecia com sua própria voz. Ele escutou os passos no chão molhado, se aproximando aos poucos.

- Eu teria enfiado uma faca no meio das tetas dela! Arrancaria aquele coração mole e comeria cru! Jamais iria deixar ela mandar em mim! Mas você é um banana e deixou ela ir embora. Agora está aqui, pondo as entranhas pra fora e choramingando na chuva! Patético!

John viu horrorizado que o dono da voz era ele mesmo. Como assim? Aquilo só podia ser sonho!

“Será que além das bebidas usei alguma coisa a mais? ”  – pensou.

Mas o chute que o falador lhe deu nas costelas foi bem real. E dolorido! Todo o ar foi expelido de seus pulmões e John caiu com a cara no próprio vômito. Enquanto se contorcia, o homem voltou a falar:

- Não se preocupe! Estou aqui para ajudar! Sou o seu “eu negro”! Sua metade mais animal! Estou aqui para tomar o seu lugar! Vou matar tudo que há de bom em você e então sobrará somente o mal. Todos no mundo irão morrer! E o lado negro de cada um irá tomar essa terra! Não há como evitar! Hahahaha!

Quando o lado negro se preparava para mais um chute, John atirou-se para cima dele e o lançou ao chão. Os dois entraram num combate pela sobrevivência, como dois animais. Mas o lado negro de John parecia ser mais forte e o arremessou contra uma lixeira. John bateu com as costas e então o lado negro começou a abrir e fechar a tampa da lixeira em sua cabeça. Uma, duas, três vezes!

John já estava prestes a perder a consciência e se entregar para a morte certa, quando sentiu o cheiro doce do perfume de Lydia. A lembrança dela ativou um último ímpeto de sobrevivência em John, que conseguiu dar um coice no atacante.

A metade negra de John cambaleou andando para trás, tropeçou e caiu de costas. Sua cabeça foi trespassada por uma barra de ferro, parte de uma antiga grade que fechava o beco.

John tentou se levantar. Cambaleando, com a cabeça latejando, viu seu atacante fora de combate. Sorriu e caiu de cara no chão desmaiando.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Apatia


Queria chorar, mas secaram as lágrimas

Queria correr, mas as pernas estão cansadas

Queria gozar, mas não há prazer

Queria gritar, mas a voz acabou

Queria dormir, mas a insônia persiste

Queria sorrir, mas estou triste


(Estava voltando para casa agora à noite e escutei a música Out of Tears do Rolling Stones no rádio. Então pensei na frase que da título à canção e a poesia acima saiu!)



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Hamilton

Hamilton estava tranquilo quando foi levado pelos policiais até o camburão. Afinal, estava apenas manifestando sua insatisfação com a atual situação do país. Antes de ser colocado no "chiqueirinho" gritou para a namorada:

- Fala pro meu pai ligar pro amigo dele que é advogado!

Tomou mais um soco do policial que o conduzia. O braço também foi torcido mais um pouquinho.

O amigo advogado do pai nada pode fazer por ele. Hamilton nunca chegou até a delegacia.

A tranquilidade virou terror quando o camburão tomou um caminho escuro e afastou-se do centro da cidade.

No jornal do dia seguinte, a manchete: "Jovem é baleado e morto em troca de tiros com a PM".

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Coração Anarquista

Meu coração anarquista
Partido
Por ter tomado partido
Em uma luta sem sentido

Triste fim de uma ideologia perdida
Partida
Partidária
Solitária

Liberdade
Igualdade
Fraternidade
Inverdade

Inversões de valores
Dissabores
Desertores
Traidores

Meu coração anarquista
Partido
Por ter tomado partido

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O Casarão - parte 3


O professor Rodolfo Freitas foi o primeiro a correr. Jorge, o assistente e namorado de Soraia também correu quase que imediatamente. Subiram as escadas saltando dois ou três degraus de cada vez e deram de cara com a porta do banheiro fechada. O professor colocou as mãos na maçaneta velha e enferrujada, mas ela não girou e a porta não se mexeu. Tentou forçar, mas por mais força que empregasse, não houve sequer um mínimo sinal de movimento da maçaneta ou da porta.

Os gritos de Soraia eram desesperados e extremamente altos. Não eram um pedido de socorro, mas os dois homens parados do lado de fora do banheiro sentiam que era isso que os gritos representavam. Algo estava acontecendo com ela dentro do cômodo e eles tentavam mover a porta com urgência.

Chamaram por ela e perguntaram o que estava acontecendo, mas como resposta somente mais gritos assustados.

Jorge pediu para o professor se afastar. Também tomou certa distância da porta e correu de encontro a ela, colidindo com o ombro direito e tentando forçar a abertura. Tentou por três ou quatro vezes, cada vez com mais força. A porta não deu nenhum sinal de estar cedendo.

O professor o segurou, quando Jorge se preparava para mais uma tentativa. Apontou para a fresta abaixo da porta. Havia água escorrendo pelo vão. Muita água. Então disse:

- Na bolsa amarela que deixei sobre a antiga mesa da sala de jantar, há um pé de cabra. Corra até lá para buscá-lo.

Jorge desceu as escadas ainda sob o som dos gritos desesperados da namorada. Os gritos eram cada vez mais ásperos; roucos. Como se a garganta de Soraia estivesse sendo machucada pelo terror.

Após cerca de cinco minutos, Jorge retornou ofegante e suando, carregando o pé de cabra. No desespero, nem reparou que os gritos de Soraia haviam cessado.

O professor tentava abrir a porta do banheiro aos chutes, como os policiais fazem nos filmes de ação de Hollywood. Mesmo chutando com força, a porta não se mexia.

- Por que demorou tanto? – Perguntou, limpando com a manga da camisa o suor que também escorria por seu rosto, fazendo os olhos arderem.

- Não estava na sala de jantar! A bolsa amarela estava na cozinha! Só fui notar depois de revirar as outras duas que estavam no lugar que o senhor disse!

Jorge enfiou o pé de cabra entre a porta e o batente, próximo da fechadura e começou a forçar. A madeira lascou um pouco e a extremidade da ferramenta penetrou um pouco mais no vão. O professor também começou a forçar o pé de cabra. Com a força e o peso dos dois, a alavanca ganhou eficiência, arrancando lascas da porta e do batente. Repentinamente, a fechadura cedeu e a porta abriu com um estalo.

Então, foi a vez de Jorge começar a gritar.

Havia sangue misturado com a água que escorria da torneira arrancada da parede. Soraia estava caída, com o lado esquerdo do rosto afundado. O olho esquerdo havia saltado da órbita e olhava para eles ainda preso ao nervo. Também era possível ver um pouco de massa cinzenta no chão.

 Aparentemente, Soraia havia caído da escada e batido com a cabeça na antiga pia de porcelana. Um pedaço dela jazia abaixo de seu rosto desfigurado. A porcelana branca estava imunda, mas mesmo assim realçava o sangue que escorria por ela. A queda parecera ter sido tão violenta, que arrancara também a velha e enferrujada torneira da parede.

A água suja jorrava como sangue pulsando de uma artéria perfurada. Lavava o sangue de Soraia daquela cena grotesca. Sua vida já havia escoado pelo vão da porta e descido as escadas junto ao riacho de água podre que escapava da parede.

A água suja também lavava as lágrimas de Jorge.

O professor passou um braço pelos ombros do rapaz para consolá-lo.


(Pessoal, não deixem de conhecer e se inscrever no canal do Manifesto Irracional no YouTube! Segue o link: https://www.youtube.com/channel/UCp2xKO4uYcocVGlb9H9nG5w)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A morte do escritoe

De tanto escrever, foi consumido pelas páginas. Morto pelos assassinos criados para suas histórias. Descanse em paz! (Exausto! Acabei de chegar de um workshop sobre Escrita Criativa. Perdoem o texto curto, mas estou acabado! Semana que vem prometo a continuação de "A ilha" ou "O Casarão". Até!)